Apesar das carências, a Venezuela deixa a Copa América como um time para mirar 2022

A Venezuela carrega o rótulo de ser a única seleção sul-americana que nunca disputou uma Copa do Mundo. Por décadas, a equipe também se manteve como sinônimo de goleadas. Mas já faz um tempo que a Vinotinto foge desta máxima, especialmente na Copa América. As presenças nos mata-matas se tornaram costumeiras, com quatro aparições nas últimas cinco edições. O time de 2019, se não chegou tão longe quanto o semifinalista de 2011, ao menos confirmou seu nível competitivo crescente. É uma equipe com carências e isso ficou evidente na eliminação diante da Argentina. Mas que, a partir de sua organização, pode realmente brigar por uma vaga no Mundial nas próximas Eliminatórias. É este o principal saldo da campanha no Brasil.

Rafael Dudamel é o homem que carrega as esperanças de uma seleção venezuelana mais forte. O ex-goleiro foi talhado pelos tempos em que a Vinotinto só apanhava. Mas seria ele o responsável por oferecer uma direção à equipe nacional, quando indicava seu declínio. O sucesso à frente do sub-20 vice-campeão mundial se nota em campo. Porém, o comandante também é o responsável por montar um conjunto sólido e muito consciente taticamente. A melhora do desempenho na reta final das Eliminatórias à Copa de 2018 referendou o trabalho de Dudamel. Os amistosos desde então trouxeram resultados ainda mais animadores. E a Copa América é o sinal concreto de que a Vinotinto terá um time chato de se encarar no qualificatório a 2022.

Que o Grupo A tenha sido cômodo ao Brasil, ele ofereceu desafios diferentes aos demais participantes. E a Venezuela conseguiu lidar bem com as ocasiões. Num jogo de pressão contra os brasileiros, foram perfeitos na defesa e arrancaram o empate. Diante do Peru, um pouco mais de equilíbrio, em que a falta de potencial ofensivo atrapalhou. De qualquer maneira, os venezuelanos mostraram que também podem jogar para frente. Na vitória contra a Bolívia, o maior problema foi mesmo a maneira como a Vinotinto se expôs, embora tenha amassado os adversários, principalmente no segundo tempo.

A desclassificação contra a Argentina teve um sabor agridoce. A Venezuela não jogou mal. Pelo contrário, levou a Albiceleste a atuar como um time pequeno, empurrando os oponentes contra a parede. O problema é que os venezuelanos não se sentem confortáveis neste tipo de ocasião. O gol de Lautaro Martínez logo de cara estragou seus planos. O excesso de desatenção e vacilações nos 10 minutos iniciais culminaram em 80 minutos em que a Vinotinto teria que tomar a iniciativa. E, com pouca qualidade criativa, faltando também arriscar mais de longe, o abafa não funcionou. Ao longo da tarde, os venezuelanos tiveram 60% de posse de bola, mas apenas seis finalizações. Dudamel impulsionou o time ao ataque com as alterações, após as entradas de Yeferson Soteldo e Josef Martínez. No entanto, quando prometiam 20 minutos de sufoco aos argentinos, a Venezuela viu suas perspectivas se esmigalharem com o segundo tento.

É uma pena que os dois gols tenham se originado em erros de alguns dos principais jogadores da Venezuela nesta Copa América. Tomás Rincón é o grande esteio no meio-campo, importante por sua combatividade e também por sua liderança. Mas não afastou o escanteio que culminaria no tento de Lautaro. Já Wuilker Fariñez, que não se cansa de salvar a equipe e fez algumas das defesas mais impressionantes da fase de grupos, entregou uma bola relativamente fácil nos pés de Giovani Lo Celso. Ambos não merecem ser taxados como vilões.

Há boas alternativas ao time. A Venezuela está muito bem servida na zaga, com Jhon Chancellor, Mikel Villanueva e Yordan Osorio acumulando boas exibições, apesar dos problemas físicos. Yangel Herrera e Rincón formam uma entrosada dupla no meio, enquanto Darwin Machís representa uma válvula de escape na esquerda. Já na frente, apesar da falta de gols, José Salomón Rondón é uma bola de segurança para fazer o pivô e puxar o time nas ligações diretas, com a alternativa de Josef Martínez no banco. Dudamel possui algumas jogadas-chave para confiar. Mas ainda falta criatividade. Falta pensar um pouco mais com a bola e caprichar no passe final. Se Juan Arango não estivesse aposentado, o veterano poderia fazer estrago com esta geração.

Dudamel parece desfrutar da confiança dos jogadores. E, considerando a média de idade baixa, essa Venezuela pode continuar evoluindo nos próximos anos. As Eliminatórias oferecerão a prova dos nove. A Vinotinto já se mostrou adaptável e não deve ter muitos problemas para arrancar os resultados fora de casa. Questão maior será resolver as carências, que não dependem somente das alternativas táticas, embora possam contar com um pouco mais de ousadia do treinador – dando mais espaço a Martínez, Juanpi Añor ou Yeferson Soteldo, por exemplo. Entre o que deu certo e o que não deu na Copa América, ainda assim, a Vinotinto deixou uma impressão positiva. Que, diante do que faltou contra a Argentina, terá que ser comprovada na empreitada rumo a 2022. Neste momento, os venezuelanos não devem nada para os demais concorrentes da segunda prateleira do continente.